12 de nov. de 2008

Saudades do mundo que eu vejo


Há saudades que caminham comigo aconchegadas num lugar gostoso que a memória tem. Sei que estão lá, mesmo quando demoro um longo tempo para apreciar outra vez as histórias que me contam. São porta-jóias que guardam encantos que não morrem. Caixinhas de música, que, ao serem abertas, derramam melodias que me fazem dançar com elas de novo.

São saudades capazes de amenizar o frio de alguns instantes com os seus braços de sol. Mas existem também saudades que pousam no meu coração de vez em quando e ficam de lá me olhando com aquele olho comprido do quer escuta. Não falam de lugares, pessoas ou épocas da minha vida. São espelhos que não refletem feições conhecidas. São saudades que entornam perfumes que somente a alma reconhece. Que sobrevoam regiões por onde apenas as emoções caminham. Que destampam ausências que a gente algumas vezes prefere ignorar.

São saudades de um mundo que tem cheiro de quintal lá da infância da gente. Que é macio para todos os seres que nem lençol recém-trocado. Que tem o timbre de voz amada quando toca o nosso ouvido. Um mundo bacana onde as pessoas têm clima de passeio. Onde não existem armas, visíveis ou não. Onde a gente vive com o sentimento de estar brincando de roda uns com os outros: se um leva um tombo reflete na roda inteira.

São saudades de um mundo contente feito céu estrelado. Feito flor abraçada por borboleta. Feito café da tarde com bolinho de chuva. Onde a gente se sente tranqüilo como se descansasse num cafuné. Onde, em vez de nos orgulharmos por carregar tanto peso, a gente se orgulha por ser capaz de viver com mais leveza. Um mundo onde as pessoas confiam umas nas outras, não pode ser de outro jeito se estamos em família na humanidade. Um mundo onde a culpa deixou de ser uma desculpa para não sermos felizes. São saudades de um mundo onde o respeito não tem cheiro de mofo: todos somos iguais e todos somos diferentes e isso é claro, natural e indiscutível.

São saudades de um mundo que lembra a pureza de amarelinha desenhada com giz no terreno da escola. Que lembra a alegria de chegar no céu quando a gente pulava amarelinha. Que lembra a melodia gostosa da risada do amigo. Saudades de um mundo sem hipocrisia. Sem diz-que-me-diz-que. Sem jogo. Ninguém quer ferir ninguém, por nenhum motivo. As boas intenções são mesmo boas. Há em cada pessoa um cuidado, um bem-querer, um zelo amoroso, com relação a todas as outras, porque essa é a natureza do coração humano. Um mundo onde todas as formas de vida são abençoadas por todas as formas de vida.

São saudades de um mundo onde a gente pode falar de coisas inocentes sem temer parecer ridículo. Onde podemos ser sensíveis e expressar a nossa sensibilidade sem sermos olhados como vítimas de uma doença grave. Onde a busca pelo conforto da alma é tão necessária quanto a busca pelo conforto do corpo. Onde podemos caminhar pelas ruas, descontraídos, sem temer ser atacados por outro ser humano. Um mundo no qual, em vez de propagar o medo, as pessoas utilizam a sua energia para propagar o amor. Saudades de um mundo que às vezes eu sinto tão intensamente que já parece de verdade. Já parece existir, de alguma forma. Um mundo no qual habito toda vez que eu o vejo.

Ana Jácomo

11 de nov. de 2008

Questões sobre a existência do mal


Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta:

- Deus fez tudo que existe?

Um estudante respondeu corajosamente:

- "Sim, fez!"

- Deus fez tudo, mesmo?

- Sim, professor - respondeu o jovem.

O professor replicou:

- Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas ações são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal. O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito.

Outro estudante levantou sua mão e disse:

Posso lhe fazer uma pergunta, professor?

Sem dúvida, respondeu-lhe o professor.

O jovem ficou de pé e perguntou:

- Professor, o frio existe?

- Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio?

O rapaz respondeu:

- Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objeto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor e não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor.

- E a escuridão, existe? - continuou o estudante.

O professor respondeu:

- Mas é claro que sim.

O estudante respondeu:

- Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas várias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca. Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço? Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo? Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente.

Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor:

- Diga, professor, o mal existe?

Ele respondeu:

- Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal. Então o estudante respondeu:

- O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como existe a Luz e o Calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão queacontece quando não há luz.

autor desconhecido

10 de nov. de 2008

A lógica de Einstein


Conta certa lenda, que estavam duas crianças patinando num lago congelado. Era uma tarde nublada e fria, e as crianças brincavam despreocupadas.De repente, o gelo se quebrou e uma delas caiu, ficando presa na fenda que se formou.

A outra, vendo seu amiguinho preso, e se congelando, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim, quebrá-lo e libertar o amigo.

Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino:

- Como você conseguiu fazer isso? É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!

Nesse instante, um ancião que passava pelo local, comentou:

- Eu sei como ele conseguiu.

Todos perguntaram:

- Pode nos dizer como?

- É simples: - respondeu o velho.

- Não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não seria capaz.

autor desconhecido

9 de nov. de 2008

Derramando Pétalas


Dirijam vossas vidas, seja nas tristezas, seja nas alegrias, sempre derramando pétalas, assim como as flores.

As flores, seja dia, seja noite, haja chuva, haja sol, enviam para o ar que respiramos todo o perfume que contém, lembrando aos homens que a vida perfumada segue mais além.

Espalhemos nossas essências de amor, perfumando a vida daqueles que nem sequer sabem admirar uma flor, ou nunca pararam para apreciar a beleza gratuita feita pelo nosso Pai com amor, para que os homens se inspirassem na simplicidade e beleza de uma simples flor.

Se colhida e dedicada a alguém significa amor. Sejamos apenas simplesmente uma flor,atuemos em estado de graça, espalhemos beleza onde existe tristeza, colhamos as dores alheias e nos transformemos em buquê de flores, para oferecermos o nosso amor a todos, com a mesma graça beleza e cor. Apenas uma flor.

O exemplo da flor bastará para uma transformação de muito amor. Não importa, jasmim, rosa, cravo, não importa a flor,o importante é que espalhemos as pétalas de nosso amor.

Sejamos Flor!

Sejamos Amor!

Cora Maria

O coração na ponta das chuteiras

O texto a seguir foi escrito por mim após a derrota da seleção feminina de futebol na partida final das Olimpíadas de Pequim. Foi um desabafo, que acho que vale a pena publicá-lo, mesmo com algum tempo de atraso.



Uma derrota é sempre uma derrota? Afirmo, categoricamente, que não. Cada perda tem a sua face. Li em um site de notícias que perder lutando dói menos. Não sei se a dor é menor, mas, certamente, fica a convicção de que não foi por covardia que ela se fez.

Foi assim que a medalha de ouro da seleção feminina de futebol transformou-se em prata. A prata mais dourada que já vi porque foi regada pelo suor da perseverança. Se as meninas não chegaram ao lugar mais alto do pódio, tiveram o reconhecimento dos irmãos tupiniquins.

“Verás que um filho teu não foge à luta.” Lamento que os rebentos da seleção masculina não tenham encarnado o espírito guerreiro invocado no hino da nação que deveriam defender. Todavia é a outro senhor que os jogadores servem. O dólar, o euro e o real: a trindade que para eles é a santa.

Amor a camisa. Ah... o amor! Se antes movia nossos soldados no campo sagrado do futebol, hoje, ele é uma utopia. A inesquecível derrota para a Itália na Copa do Mundo de 82 feriu quase mortalmente uma geração. O lenitivo ficou por conta da garra e do futebol bonito que os combatentes brasileiros demonstraram na ocasião.

Raça que sequer entrou em campo no Mundial de 98 (França) e que passou longe do estádio dos Trabalhadores (Olimpíadas de Pequim 2008). Porém, hoje (21/08/2008), floresceu no mesmo estádio dos Trabalhadores com as guerreiras-meninas brasileiras.

Mostraram a uma nação e aos machistas (que insistem em afirmar que mulher não entende nada de futebol) que aprenderam a jogar com os homens. Isso, nós mulheres, temos que admitir! Mas uma lição foi ensinada e, ao contrário deles, elas não esqueceram. Quando entram em campo tiram o coração do peito e o colocam na ponta das chuteiras.

Valeu, meninas! O ouro é só questão de tempo porque vontade e amor vocês têm de sobra. E quem sabe um dia, os meninos aprenderão com vocês o que os ancestrais deles ensinaram: amor à camisa.

Gratidão


Quando lembro o quanto algumas pessoas me ajudam com o seu olhar amoroso, ao longo da estrada, sinto um ventinho bom percorrer meu coração e arrepiar a vida toda de contentamento. Um ventinho quente, parecido com o que toca a minha pele quando caminho na beira da praia nas manhãs azuis que ainda se espreguiçam. A pele é o lado de fora do sentimento.

Quando lembro de cada nova muda de afeto que recebo e vejo florescer devagarinho no meu jardim, a lembrança afasta as nuvens momentâneas e deixa o céu à mostra. Faz um sorriso sereno acontecer em mim. Acende uma música que a gente só consegue ouvir quando a palavra descansa.

Quando lembro que crescer é, no íntimo, um exercício solitário, mas que não estamos sozinhos na sala de aula, saboreio o conforto dessa recordação. Somos mestres e aprendizes uns dos outros, o tempo todo. Estudamos, lado a lado, inúmeras lições, mas também criamos espaço para celebrar os mágicos momentos de recreio. Às vezes, com alguma leveza, até descobrimos juntos um segredo libertador: o aprendizado e o recreio não precisam acontecer separados.

Quando lembro o quanto as nossas vidas se entrelaçam amorosamente com outras vidas nessa tapeçaria de fios sutis dos encontros humanos, a gratidão emerge e se espalha, em ondas de ternura, por toda a orla do peito. Diante de tantas incertezas, essa verdade perene: o amor compartilhado é o sábio curador.

Quando lembro, eu agradeço. E respiro macio.

Ana Jácomo
(www.anajacomo.blogspot.com)

Eu voltei...

Depois de um longo tempo, volto a postar textos aqui no meu blog. É que tenho um outro blog com alguns amigos vercillianos (http://www.floresvercillianas.blogspot.com/) e ele está exigindo um pouco mais do meu tempo. Prometo me dedicar um pouquinho mais ao Guarde nos olhos. Voi tentar...

Para marcar essa volta, publico um texto da minha amiga Ana Jácomo. Os textos dela são de uma sensibilidade infinita. Ela é dessas poucas pessoas que consegue ver beleza nas pequenas coisas. Visitem o blog dela, é apaixonante (
http://www.anajacomo.blogspot.com/).

Com vocês: É isso.


É isso


Porque é isso: quando sorri, eu tenho a impressão de que apertaram o interruptor que acende o sol, pois tudo clareia ao seu redor. Quando fala, eu tenho a impressão de que toda a vida canta a música bonita que a sua alma diz. Quando silencia, eu tenho a impressão de que todas as coisas adormeceram um pouquinho até você acordá-las outra vez.

Porque é isso: quando olha, eu tenho a impressão de que a primavera beijou todos os jardins, pois tudo parece florescer onde os seus olhos descansam. Quando está feliz, eu tenho a impressão de que o mundo inteiro brinca de roda com a sua alegria. Quando está triste, eu tenho a impressão de que todos os passarinhos do planeta estão temporariamente na muda e encolheram seu canto.

Porque é isso: quando mostra as suas limitações é que eu vejo ainda mais o seu tamanho. Quando mostra o seu desconcerto é que eu vejo ainda mais a sua força. Quando mostra as suas dores é que eu vejo ainda mais a sua vitória. Quando mostra os seus medos é que eu vejo ainda mais a sua coragem. Quando mostra as suas sombras é que eu vejo ainda mais o seu lume.

Porque é isso: o amor, primeiro, é toque na pele arrepiada de encanto que reveste a alma. Depois, sopra o seu arrepio pra pele encantada que reveste o corpo. Então, acontece o milagre do corpo e da alma se encontrarem, se abraçarem, e se misturarem num encanto só.

Eu sento na beira da praia dos seus olhos, incontáveis vezes, perto ou longe de você, só pra apreciar de novo. Porque o amor é isso também: essa admiração que não cansa de se reinventar a cada onda.



27 de ago. de 2008

Ora rua tão deserta, ora multidão


Aromática, apetitosa, multicultural. Essas são algumas formas de definir a famosa rua do Lazer. Localizada no bairro da Boa Vista, entre os blocos A e G da Universidade Católica de Pernambuco, se tornou quase particular.

Particular? Estranho, mas é isso mesmo. Experimente perguntar a alguém onde fica a rua Bernardo Guimarães. Poucos saberão indicar o caminho. Agora, se o questionamento for: como faço para chegar a rua do Lazer da Católica? Prontamente, responderão. Ela não é da universidade de papel passado, e sim por consideração. Digamos assim.

Onde antes trafegavam automóveis, caminham de um lado para outro universitários e professores. Ela é o 'lar' de vendedores ambulantes e donos de lanchonetes. Além de ser o solo em que se ergueu a imponente Biblioteca Pe. Aloísio Mosca de Carvalho, relicário de conhecimento.

Aromática. Rua aromática? Vendem-se ervas por lá? Poderia alguém perguntar. Não, não. O que aguça o olfato dos transeuntes são as iguarias produzidas no local e, que exalam, sem pedir licença, um cheiro convidativo a uma boa refeição. As opções são as mais variadas possíveis. Desde a tradicional e nordestina macaxeira com charque à comida chinesa. Atraídos pela oferta alimentícia, pedintes, assim como Lázaro, esperam pelas saciantes e caridosas migalhas. Mas não é só de pão que os universitários se alimentam.

O conhecimento e a informação podem ser consumidos na banca de revistas. Já o desejo de comer um bombom, próximo à entrada do bloco G. Para os mais vaidosos, bijuterias de crochê, sementes, miçangas e penas. Os amantes da música e inimigos dos preços altos podem adquirir CDs e DVDs piratas.

A rua é para os estudantes point de discussão sobre os trabalhos acadêmicos a serem produzidos ou até, e mais provavelmente, para esquecê-los. Entretanto sua função maior é de saciar a fome, matar as saudades e jogar conversa fora. Se sairmos do bloco A e olharmos para o lado esquerdo da via, veremos uma intensa movimentação. Já no lado direito, a calmaria impera. Até nisso é possível perceber a diversidade de estilos, culturas e personalidades dos que passam por lá.

Palco de protestos, via de comércio segue cumprindo a função que lhe rendeu o carinhoso apelido: rua do Lazer.