17 de jun. de 2009


Jornalismo: uma profissão diante do Supremo

Por Ayrton Maciel (Presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (SinjoPE)


Jornalismo não é arte. Não é arte plástica, não é arte cênica, não é literatura, não é cordel, não é o artesanato da palavra. Jornalismo é só uma profissão, um ofício com suas técnicas de apuração, redação e apresentação, que tem seu espaço de criação, mas, que - diferentemente da arte - não tem qualquer traço de ficção, nem é ilimitado no imaginário do jornalista. Uma atividade que, infelicitadamente, ganhou um glamour - influência do grande desenvolvimento tecnológico que nos tempos modernos deu áurea à informação - e uma dimensão muito além do que ela em si mesmo deveria merecer. Pensem só: ser tachada de o quarto poder já é algo que transcende às relações equilibradas em sociedade. Não está instituído que a imprensa é poder, mas ela atua como tal. Povoa o imaginário popular.

Caberia à imprensa apenas informar e formar as pessoas para que pudessem ter o espírito crítico em seu lívre arbítrio para julgar, analisar, optar ou decidir. Porém, passou a ser mais do que isso. Passou a um estágio de status ser apresentado como jornalista. Portanto, nada como todo mundo querer ser jornalista. Todo mundo não, todos aqueles que crêem que imprensa é poder e que ser jornalista é ser, estar e conviver com o poder. Por isso, é comum, nos dias atuais, as páginas de opinião dos jornais estarem preenchidas de artigos de autores que se identificam por sua profissão original e por uma segunda atividade complementar: jornalista. É desembargador e jornalista, médico e jornalista, escritor e jornalista, advogado e jornalista etc, etc, etc. Ou seja, todo mundo é jornalista. Nenhum quer, entretanto, deixar uma sala com ar-condicionado para subir morros cariocas, entrar em favelas do Recife, percorrer periferias de São Paulo, virar noites e feriados em coberturas de tragédias.

Nas próximas 48 horas, o Supremo Tribunal Federal (STF) irá julgar uma entre duas situações: a preservação ou o fim de uma profissão. Irá dizer se Jornalismo é arte, que qualquer ser humano letrado poderá exercer, ou se Jornalismo é um ofício que necessita de formação (e abnegação!). Ao contrário daqueles que acreditam que Jornalismo é uma arte, há aqueles - os profissionais, os abnegados - que são convictos de que um jornalista, em seu ofício, não está fazendo arte, seja literatura ou qualquer criação. O jornalista não cria, apenas relata, narra, conta. Coincide, tão-somente, com o artista apenas na necessidade imperiosa da liberdade de expressão. Liberdade que, ao ser utilizada, recebe a áurea de liberdade de imprensa. Uma pequena metamorfose, porque, no Jornalismo, liberdade de imprensa é só uma forma de liberdade de expressão. Esta é muito mais ampla, inclui, inclusive, a liberdade nas artes.

O Jornalismo faz parte do imaginário do homem, mas é só o mediador da comunicação. Assim, não é arte, não pode ter a criatividade das artes, não pode ser ficção. As matérias primas deste ofício são a verdade (o fato) e o conhecimento acumulado. Então, não é liberdade de expressão em todas as suas formas.

Mais que isso! Jornalismo não se vende, não é mercadoria, não é moeda de troca, de barganha ou de acumulação de riqueza. Quem assume o papel do capital é a empresa privada e quem assume o papel do poder público é o Estado, por seus aparelhos de controle ideológico e por suas instituições de poder, não é o Jornalismo. Portanto, precisa ter alguém para exercê-lo com identidade. Mas, nos dias que se precedem, corremos todos - aqueles que têm o Jornalismo por atividade exclusiva e para qual se prepararam - e a sociedade o risco de conviver com uma profissão para qual não se exigirá preparo, muito menos um código de ética, e sem que haja uma categoria. Na medida em que deixar de existir uma regulamentação profissional, deixará de existir uma categoria. A remuneração, as condições de acessibilidade, as regras de um código de atuação, os critérios para as pautas, tudo será orientado pelos interesses, pela empresa, pelo poder. Aí, o Jornalismo vira mercadoria. Qual independência terá um profissional para dizer não a quem lhe ferir os escrúpulos ou o direito de consciência?

Jornalismo também não é, e não pode ser, o refúgio dos incompetentes, a atividade dos que não deram certo em outros ofícios e, por falta de opções mais fáceis, venha a ser a alternativa de senhores de dinheiro, políticos ou autoridades de verem um filho enfim empregado e finalmente com uma profissão. Jornalismo não pode ser a ocupação dos que não deram certo no direito, na engenharia, na medicina, na economia, no comércio, em qualquer outro ramo. Nem dos que querem o título para glamourizar o curriculo. E não pode ser o meio mais fácil de atuaçã de organizações sociais que não queiram respeitar a organização primária da sociedade: o trabalho. Este é a primeira das organizações sociais. Uma exigência natural que a revolução industrial e a organização do capitalismo provocaram. A organização do trabalho foi a contrapartida necessária e o sindicato o instrumento de mediação. Como, então, ter sindicato forte sem uma profissão regulamentada, sem existir categoria?

Neste País, não há ramo de empresas que tenha tantos privilégios e incentivos que o da comunicação, a mídia, a imprensa. Qual o grande jornal do Brasil que fechou as portas de 1964 para cá? O último grande título que encerrou a atividade foi o Última Hora, empastelado pelo regime militar. Jornais não pagam imposto sobre importação de papel, rádios e TVs não perdem a concessão. Não há um só. À sombra de 64, muitos tornaram-se grandes conglomerados de comunicação, que conseguem rolar dívidas ou obter empréstimos para sair de dificuldades sem os empecilhos que os outros ramos empresariais enfrentam.

A comunicação tem sido o melhor ramo para se construir um monopólio. Até de quem parte a acusação de inconstitucionalidade da regulamentação de uma profissão, no verso não pesa a arguição de inconstitucionalidade da propriedade cruzada dos meios de comunicação.

Enfim, quem já pesquisou ou leu jornais de décadas passadas ou sobre o Jornalismo que se fez até 1969, o ano da regulamentação dos jornalistas brasileiros - um decreto que é só uma legislação trabalhista -, constatará que o Jornalismo feito foi sempre inferior ao Jornalismo que se faz. Fazemos um Jornalismo sempre melhor do que sempre se fez. E temos que agradecer aos cursos instituídos a partir nos anos 40 e 50, à formação no Jornalismo, que ampliou o profissional, deu-lhe a noção de impessoalidade, despertou-lhe a sensibilidade para o que é notícia, instigou-lhe a independência e exigiu-lhe um código de ética profissional. Com tudo isso, se não há imparcialidade, por serem todos humanos, há condição de ser isento no exercício do ofício. O risco será perder tudo para quem acha que Jornalismo é arte.

Fonte: http://www.revistaalgomais.com.br/

29 de mar. de 2009

Que Deus não permita que eu perca o romantismo


Que Deus não permita que eu perca o romantismo, mesmo sabendo que as rosas não falam...

Que eu não perca o otimismo, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre...

Que eu não perca a vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa...

Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas...

Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda...

Que eu não perca o equilíbrio, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia...

Que eu não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento por mim...

Que eu não perca a garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos...

Que eu não perca o sentimento de justiça, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu...

Que eu não perca a beleza e a alegria de ver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...

Que eu não perca a vontade de ser grande, mesmo sabendo que o mundo é pequeno...

E acima de tudo...

Que eu jamais me esqueça que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois...

A vida é construída nos sonhos e concretizada no amor!

Autor desconhecido

27 de mar. de 2009

Você tem o dom de escutar?



Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.

Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia e que de tão linda nos faz chorar.Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves

25 de mar. de 2009

Fazendo a diferença


Sem usar caneta e papel, tente responder a estas perguntas:

1. Cite as cinco pessoas mais ricas do mundo hoje.

2. Cite os últimos vencedores da corrida de são silvestre.

3. Cite dez pessoas que ganharam o prêmio nobel ou pulitzer.

Tente, agora, responder esta segunda parte do questionário:

1. Cite dois professores que fizeram diferença em sua vida.

2. Cite três amigos que estiveram ao seu lado durante um período difícil.

3. Cite uma ou duas pessoas que acreditaram em você e que pensam em você
como alguém de valor.

Como foi dessa vez? Aposto que teve sucesso. Na verdade, se houvesse tempo suficiente, você poderia ter citado mais nomes para cada pergunta. Por quê? Porque as pessoas que fazem diferença na vida não são aquelas com as credenciais mais impressionantes. Não são sequer indivíduos que ganharam mais prêmios, nem aqueles cujos rostos aparecem nas capas de revistas.

É interessante que, quando se trata de heróis genuínos, a aparência exterior nada significa. O qi deles ou o desempenho que tiveram na escola não faz diferença alguma para nós. Nada disso importa. O que vale são as qualidades notáveis que os tornaram memoráveis.
Não ligue para as barreiras tolas levantadas pela sociedade ou pela própria pessoa. Avance confiante e faça diferença.

(texto adaptado do livro Fênix de Daniel Carvalho Luz)

24 de mar. de 2009

Chegada do Outono


Uma árvore em flor fica despida no outono.
A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude.
Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente
O renovar das estações é necessário à natureza
Assim, como o renovar da esperança em nossos corações...

28 de fev. de 2009

Ai da nação...


“Nos olhos do mestre havia distâncias e recordações. Olhou para as mentes e para o vasto éter e havia uma luta em seu silêncio. Depois disse: meus amigos e meus companheiros. Depois, disse: meus amigos e companheiros de caminho, ai da nação que é cheia de crenças e vazia de religião. Ai da nação que veste uma roupa que não teceu e come um pão que não segou e bebe um vinho que não flui de seu próprio lagar. Ai da nação que aclama o fanfarrão como herói e considera generoso o conquistador resplandecente. Ai da nação que despreza uma paixão em seu sonho, e a ela se submete em seu despertar. Ai da nação que só levanta a voz nos funerais e só se vangloria de seus monumentos em ruínas, e só se rebela quando seu pescoço está entre a espada e o cepo. Ai da nação cujo estadista é uma raposa, e cujo filósofo é um prestidigitador, e cuja arte é a arte da maquilagem e da mímica. Ai da nação que recebe todo novo governante com trombetas, e dele se despede com apupos, para receber outro governante com trombetas. Ai da nação cujos sábios estão mudos pelos anos, e cujos homens fortes estão ainda no berço. Ai da nação que vive dividida em fragmentos, cada fragmento se considerando uma nação.”

(Texto de Khalil Gibran, do livro "O Jardim do Profeta")

27 de fev. de 2009

Intimidade


Algumas pessoas se destacam para nós. Não há argumento capaz de nos fazer entender exatamente como isso acontece. Porquê dançam conosco com mais leveza nessa coreografia bela, e tantas vezes atrapalhada, dos encontros humanos. Muitas vezes tentamos explicar, em vão, a medida do nosso bem-querer. A doçura de que é feito o olhar que lhes dirigimos. O sentimento que nos move para ajudá-las a despertar um único sorriso.

Não importa quando as encontramos no nosso caminho. Parece que estão na nossa vida desde sempre e que mesmo depois dela permanecerão conosco. É tão bonito compartilhar a jornada com elas que nos surpreende lembrar de que houve um tempo em que ainda não sabíamos que existiam. É até possível que tenhamos sentido saudade mesmo antes de conhecê-las. O que sentimos vibra além dos papéis, das afinidades, da roupa de gente que usam. Transcende a forma. Remete à essência. Toca o que a gente não vê. O que não passa. O que é.

Por elas nos sentimos capazes das belezas mais inéditas. Se estão felizes, é como se a festa fosse nossa. Se estão em perigo, o aperto é nosso também. Com elas, o coração da gente descansa. Nós nos sentimos em casa, descalços, vestidos de nós mesmos. O afeto flui com facilidade rara. Somos aceitos, amados, bem-vindos, quando o tempo é de sol e quando o tempo é de chuva. Na expressão das nossas virtudes e na revelação das nossas limitações. Com elas, experimentamos o conforto dos encontros nesse longo caminho do aprendizado do amor.

(Texto escrito por Ana Jácomo)

26 de fev. de 2009

Travesseiros Imaginários


Todo dia eu faço uma aposta. As pessoas nadam em suas próprias mentiras. Passam por cima do sol para angariar o que lhes é aprazível. E seguem insones. As cabeças cansadas já não cabem mais nos travesseiros de costume. As pálpebras pesam à medida dos anos. As pessoas seguem pisando em seus chãos, em seus céus, em seus sóis e em si mesmas. E se martirizam a cada segredo guardado na estante sustentada em madeira e remorso. As pessoas passam a vida tentando ficar impunes enquanto eu almejo apenas ficar imune a todas elas. E quando já não há mais espaço entre madeira e remorso, as pessoas tentam outros travesseiros que abracem generosamente suas cabeças cheias de culpa. E se aproximam umas das outras em busca de perdão, em busca de algo que as leve à redenção. E seguem cegas e insones. À procura de seus travesseiros imaginários. E adoecem envenenadas por seus próprios segredos. Todo dia eu faço uma aposta. Enquanto as pessoas morrem afogadas na piscina de mentiras que cultivam em seus quintais. As cabeças são grandes demais para as fôrmas dos travesseiros vendidos nas lojas. E pesam. Pesam a medida dos anos. E quando estendo a mão a alguém é quase sempre um lapso. Cada aceno em direção ao outro é risco de queda livre. E sempre aceno. E sempre despenco. Mas meu consolo é minha estante. Sustentada em madeira e fé. E meu travesseiro tem a medida de minha cabeça: leve. E ainda assim, todo dia eu faço uma aposta. E todo dia eu perco.

(Texto de Maíra Viana, do Teatro Mágico)

25 de fev. de 2009

Entardece a vida

Era tarde de Domingo e no horizonte a policromia tomou conta da natureza, enfeitando-a com mesclas de vermelho, raios laranja iluminados, tons de cinza sisudo, e traços lilases. Era bonito de se ver aquele quadro em meio ao qual o sol se despedia. Deslizando para o outro lado da Terra, deixava a impressão de seu dever cumprido: havia iluminado o dia. A paisagem rapidamente se desfez e guardou o sol no manto da noite. É generoso o espetáculo que o entardecer proporciona. Sensibilidade, serenidade e intimidade, nos possibilitam descortinar a beleza do fim do dia, como também perceber as faces encantadas do final de um percurso.

O pôr do sol é bonito, porque é efêmero. Se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente. Tudo pede para terminar, até mesmo um beijo ardente. A vida pulsa em direção ao fim. Imaginemos por um instante, que o sol jamais vai se pôr, ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos, como nos sentiríamos em relação a este dia e-t-e-r-n-o e em relação à vida sem fim. O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer. Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e estética.

A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos todos nessa direção, e, como o sol, nos guardaremos no manto da noite. A sombra que avança para a noite, nos dá notícia do tempo; do tempo que passou, e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento. É no tempo que dispomos que teremos de construir sentido para nosso estar-no-mundo. Não importa quanto tempo teremos, importa torná-lo precioso. Isso se faz renascendo em direções cada vez mais humanizadas e significativas. O pôr do sol tem cheiro de saudade sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. “O que a memória ama, fica eterno” diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Convivemos com o mito da “eterna juventude”. Esse mito nos aliena quando nos submetemos aos imperativos da cultura que superestimam o visual, o lado de fora, o padrão teen de ter um corpo jovem e bonito Mas, haverá uma “eterna juventude” interior se mantivermos uma atitude aberta para a vida, se renovarmos nosso gestual humano, se atualizarmos o gozo de estar vivos, se ressignificarmos sempre nossa presença no Mundo. É infinita a possibilidade de se rever os próprios gestos e crescer em sabedoria. Assim, o corpo pode estar maduro e portar uma alma menina. Essa vida interna é nutrida pelo encontrar-se e encontrar os outros, pelo produzir e participar da vida em sua diversidade.

Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizermos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida. Os valores que alicerçamos, darão tons policrômicos com os quais poderemos colorir o envelhecer. Isso não significa ausência de sofrimentos e inquietações no trajeto do existir. No cenário do entardecer, o pôr do sol fica mais bonito quando há nuvens a transpor, o que lhe proporciona uma beleza inédita. Quanto mais nuvens, maior a beleza. As nuvens são como nossas angústias, elas apenas tentam anuviar nossa alegria, mas se tentarmos compreendê-las, se pudermos acolhê-las, se soubermos lidar com elas, aprenderemos a encontrar força e confiança para a experiência única e fantástica de estarmos no Mundo, de forma bonita, corajosa e construtiva.

(Texto da professora da Unicap, Amparo Caridade)