20 de set de 2007

Jornalismo também é sensibilidade

Li duas reportagens especiais publicadas no Diario de Pernambuco que chamaram a minha atenção. A matéria era sobre Manari, cidade pernambucana que possui o pior índice de desenvolvimento humano do Brasil, e tinham como título Manari e o milagre da maçã e Manari e os dias melhores. É inacreditável que seres humanos vivam em condições tão precárias como as relatadas. Alguns trechos são bem fortes, por exemplo quando uma senhora fala: "Aqui até o nada serve". Até o nada serve... Díficil imaginar como possa servir. Como pessoas podem se sentirem felizes até com o nada. Tantas vezes temos tudo e somos infelizes.

Quero, aqui, parabenizar o repórter Fred Figueroa pela bela reportagem e pela sensibilidade. Às veses, fico imaginando como os profissionais da comunicação reagem em situações feito estas. Será que apenas escrevem a matéria e ficam imunes ao sofrimento das pessoas? Fred Figueroa provou que jornalista também é humano e se compadece com sofrimento das pessoas. Jornalistas não são meros espelhos, como nos sugere a Teoria do Espelho Devemos ser imparciais, quanto a isso não tenho dúvidas, contudo não podemos fechar os olhos ao sofrimento do próximo. É fácil criticar quando uma matéria tem erros, mas nem sempre elogiamos aquelas bem escritas. Publico trechos das reportagens.

As reportagens de Fred Figueroa foram publicadas no Diario de Pernambuco (02 e 03/09/2007) e a foto de Juliana Leitão/D.P

"(...) Na estrada que leva do litoral ao Sertão de Pernambuco, incontáveis placas verdes anunciam cidades e distâncias em letras brancas. Manari não aparece em nenhuma delas. Talvez por esquecimento. Talvez por não ser um lugar para onde alguém pense em ir. Distante demais da capital e de qualquer outro pólo de desenvolvimento do interior. Não existem razões econômicas ou culturais que levem alguém até ali. Até aquela armação metálica vazia. Que funciona apenas como uma moldura enferrujada para um céu quase sempre azul. Que avisa a chegada a lugar nenhum."

"(...) Gildo é o motorista da equipe de reportagem do Diario que foi até Manari. Enquanto a mãe das sete crianças mostrava os quatro cômodos apertados, sujos e escuros da pequena casa em que eles vivem - na zona rural de Manari -, desviei os olhos para o lado de fora. Na sombra de um pinheiro infrutífero, Gildo estava cercado pelos meninos e meninas, com a pequena faca nas mãos, operando aquele que seria o "milagre da maçã". Uma cena espontânea que reflete um sentimento comum para quem chega até ali: é difícil não se envolver com a realidade de Manari."

"(...)Toda a miséria está ali. Na falta de comida; na necessidade de remédios; nos retalhos de colchão velho espalhados pelo chão de barro onde as crianças dormem; na falta de um banheiro (os banhos são na cisterna e o resto, no mato mesmo). O pior lugar para se viver é aquele em que sequer podemos chamar a existência de vida. Mas os olhos de quem passa não enxergam a mesma realidade dos de quem fica."

"(...) Aqui até o nada serve". A frase é de Teresa Maria dos Santos. Agricultora de 54 anos. Difícil entender onde ela quis chegar. Diante da reação surpresa de quem a entrevistava, ela reforça sua teoria sobre o "nada" e a sua cidade: 'e não serve, não'?"

"(...) Depois de minutos de conversa, começa a ficar um pouco mais fácil entender o que ela quis dizer com "aqui até o nada serve". O "nada" de hoje, simplesmente, é melhor que o "nada" de ontem. "Vivíamos morrendo de sede aqui. Não tinha médico, remédios, nem escola. Sempre fomos pobres, mas hoje a gente acorda sabendo que vai viver", diz. Sua vida mudou.Pouco, mas mudou. Sua mãe tem 80 anos e uma saúde tranqüila. Viveu além da "esperança" da cidade. Seus quatro filhos reescreveram a história da família e aprenderam a escrever. Todos estão na escola. E Manari aprendeu a lição."

"(...) Deixamos Manari. Pelo caminho de areia. Mas, com outros olhos. Antes do asfalto, uma última parada. Voltamos para a casa onde vivem Aneci e os seus sete filhos. A história deles foi contada ontem. Dessa vez, deixamos o caderno e a câmera fotográfica de lado. Como disse no início do texto de ontem, é difícil não se envolver com Manari. Não se integrar. Não ajudar. Ali, já não éramos mais jornalistas. Eles, não eram mais personagens. Sacolas com comida e doces. Sorrisos. Lágrimas. Silêncio. E várias mãozinhas acenando.

O jornalismo às vezes tem uma lógica perversa. Vendo a miséria sumindo aos poucos no retrovisor, fica a certeza de que, no próximo censo do IBGE, aquela não será mais a cidade com pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil e certamente, não estará mais na rota das equipes reportagens - que seguem ávidas os rumos que as pesquisas e análises sociais revelam. Manari desaparece na poeira. Na cabeça, volta a imagem daquelas mãozinhas acenando tchau, sem saber que, possivelmente, estavam dizendo 'adeus'. "

9 de set de 2007

Dá-me a Tua Mão


Estou sem tempo de escrever textos e publicá-los aqui. Mas para não deixar o blog tão desatualizado posto o poema ste poema Dá-me a Tua Mão que é da escritora ucraniana Clarice Lispector. Clarice que, inclusive, viveu durante a infância em Recife e estudou no Ginásio Pernambucano. A autora escreveu diversos livros entre ele Perto do Coração Selvagem (1943), Laços de Família (1972) e o inesquecível A Hora da Estrela (1977).


Dá-me
a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

1 de set de 2007

Deixem-me viver!

Em um post anterior falei de aborto, contudo não poderia deixar de publicar essa história. O Caso da Espinha Bífica é um relato emocionante e comovente, um grito silencioso pela vida. É um caso verídico. Não preciso falar muito porque a imagem fala por mil palavras.


O Caso da Espinha Bífida

Um fotográfo que fez a cobertura de uma intervenção cirúrgica para corrigir um problema de espinha bífida realizada no interior do útero materno num feto de apenas 21 semanas de gestação, numa autêntica proeza médica, nunca imaginou que a sua máquina fotográfica registaria talvez o mais eloqüente grito a favor da vida conhecido até hoje.

Enquanto Paul Harris cobria, na Universidade de Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, Estados Unidos, o que considerou uma das boas notícias no desenvolvimento deste tipo de cirurgias, captou o momento em que o bebê tirou a sua mão pequenina do interior do útero da mãe, tentando segurar um dos dedos do médico que o estava a operar.

A foto, espectacular, foi publicada por vários jornais dos Estados Unidos e a sua repercussão cruzou o mundo até chegar à Irlanda, onde se tornou uma das mais fortes bandeiras contra a legalização do aborto. A pequena mão que comoveu o mundo pertence a Samuel Alexander, cujo nascimento deverá ter ocorrido no passado dia 28 de dezembro (no dia da foto ele tinha apenas 5 meses de gestação).

Quando pensamos bem nisto, a fotografia é ainda mais eloqüente. A vida do bebê está literalmente presa por um fio. Os especialistas sabiam que não conseguiriam mantê-lo vivo fora do útero materno e que deveriam tratá-lo lá dentro, corrigindo a anomalia fatal e voltar a fechar o útero para que o bebê continuasse o seu crescimento normalmente. Por tudo isso, a imagem foi considerada como uma das fotografias médicas mais importantes dos últimos tempos e uma recordação de uma das operações mais extraordinárias registadas no mundo.

Agora, o Samuel tornou-se no paciente mais jovem que já foi submetido a este tipo de intervenção e, é bem possível que, já fora do útero da mãe, Samuel Alexander Arms aperte novamente a mão do Dr. Bruner.

A apresentadora de televisão Justine McCarthy disse que é impossível não se comover com a imagem poderosa desta mão pequenina que segura o dedo de um cirurgião e nos faz pensar em como uma mão pode salvar vidas.
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Espinha bífida significa espinha cindida ou dividida. Esta divisão se dá nas primeiras semanas de gravidez, quando a medúla , então em formação, não se fecha corretamente, o que faz com que os bêbes apresentem os nervos expostos e vértebras danificadas. Crianças portadoras de espinha bífida poderão apresentar dificuldades de coordenação, aprendizado, controle muscular e mobilidade.

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Precisa dizer alguma coisa? Creio que não.

Ontem, iria publicar o texto acima, porém não tive tempo, ou talvez o destino não quisesse. À noite, fui à Igreja e, por coincidência ou providência, houve uma apresentação sobre o aborto e tocou uma música belíssima que eu já conhecia, mas não lembrava dela. O nome da canção é Grito Silencioso, da banda Santa Clara. Por coincidência, também, eu escrevi que a imagem a cima era um grito silencioso. Infelizmente, não dá para colocar o áudio, contudo publico a letra.


Grito Silencioso
Kátia Simone

Há um sonho realizado, grande obra de Deus Pai
Dar a vida para os filhos, amar, sorrir, louvar e ser feliz
Mas os homens insensíveis sempre querem decidir
quem tem o direito a viver ou quem está
condenado a morrer

Grito silencioso de órfãos inocentes
em nome da liberdade,
assassinados no ventre.

Relações irresponsáveis fazem da vida um brinquedo
tão longe de serem um verdadeiro amor.
Não darão o primeiro grito, nem nos lábios um sorriso.
Pequeninos, indefesos, abortados em segredo
o seu destino é a dor.

Cruelmente exterminados, só queriam ser amados
E fazer tudo que uma criança faz.
Retirados em pedaços, por veneno ou sufocados
pequeninos torturados, pelos seus desamparados
não conheceram o amor.

Grito silencioso, que machuca
o coração de Deus
Maria, mãe da Igreja, roga pelos filhos seus.