28 de fev de 2009

Ai da nação...


“Nos olhos do mestre havia distâncias e recordações. Olhou para as mentes e para o vasto éter e havia uma luta em seu silêncio. Depois disse: meus amigos e meus companheiros. Depois, disse: meus amigos e companheiros de caminho, ai da nação que é cheia de crenças e vazia de religião. Ai da nação que veste uma roupa que não teceu e come um pão que não segou e bebe um vinho que não flui de seu próprio lagar. Ai da nação que aclama o fanfarrão como herói e considera generoso o conquistador resplandecente. Ai da nação que despreza uma paixão em seu sonho, e a ela se submete em seu despertar. Ai da nação que só levanta a voz nos funerais e só se vangloria de seus monumentos em ruínas, e só se rebela quando seu pescoço está entre a espada e o cepo. Ai da nação cujo estadista é uma raposa, e cujo filósofo é um prestidigitador, e cuja arte é a arte da maquilagem e da mímica. Ai da nação que recebe todo novo governante com trombetas, e dele se despede com apupos, para receber outro governante com trombetas. Ai da nação cujos sábios estão mudos pelos anos, e cujos homens fortes estão ainda no berço. Ai da nação que vive dividida em fragmentos, cada fragmento se considerando uma nação.”

(Texto de Khalil Gibran, do livro "O Jardim do Profeta")

27 de fev de 2009

Intimidade


Algumas pessoas se destacam para nós. Não há argumento capaz de nos fazer entender exatamente como isso acontece. Porquê dançam conosco com mais leveza nessa coreografia bela, e tantas vezes atrapalhada, dos encontros humanos. Muitas vezes tentamos explicar, em vão, a medida do nosso bem-querer. A doçura de que é feito o olhar que lhes dirigimos. O sentimento que nos move para ajudá-las a despertar um único sorriso.

Não importa quando as encontramos no nosso caminho. Parece que estão na nossa vida desde sempre e que mesmo depois dela permanecerão conosco. É tão bonito compartilhar a jornada com elas que nos surpreende lembrar de que houve um tempo em que ainda não sabíamos que existiam. É até possível que tenhamos sentido saudade mesmo antes de conhecê-las. O que sentimos vibra além dos papéis, das afinidades, da roupa de gente que usam. Transcende a forma. Remete à essência. Toca o que a gente não vê. O que não passa. O que é.

Por elas nos sentimos capazes das belezas mais inéditas. Se estão felizes, é como se a festa fosse nossa. Se estão em perigo, o aperto é nosso também. Com elas, o coração da gente descansa. Nós nos sentimos em casa, descalços, vestidos de nós mesmos. O afeto flui com facilidade rara. Somos aceitos, amados, bem-vindos, quando o tempo é de sol e quando o tempo é de chuva. Na expressão das nossas virtudes e na revelação das nossas limitações. Com elas, experimentamos o conforto dos encontros nesse longo caminho do aprendizado do amor.

(Texto escrito por Ana Jácomo)

26 de fev de 2009

Travesseiros Imaginários


Todo dia eu faço uma aposta. As pessoas nadam em suas próprias mentiras. Passam por cima do sol para angariar o que lhes é aprazível. E seguem insones. As cabeças cansadas já não cabem mais nos travesseiros de costume. As pálpebras pesam à medida dos anos. As pessoas seguem pisando em seus chãos, em seus céus, em seus sóis e em si mesmas. E se martirizam a cada segredo guardado na estante sustentada em madeira e remorso. As pessoas passam a vida tentando ficar impunes enquanto eu almejo apenas ficar imune a todas elas. E quando já não há mais espaço entre madeira e remorso, as pessoas tentam outros travesseiros que abracem generosamente suas cabeças cheias de culpa. E se aproximam umas das outras em busca de perdão, em busca de algo que as leve à redenção. E seguem cegas e insones. À procura de seus travesseiros imaginários. E adoecem envenenadas por seus próprios segredos. Todo dia eu faço uma aposta. Enquanto as pessoas morrem afogadas na piscina de mentiras que cultivam em seus quintais. As cabeças são grandes demais para as fôrmas dos travesseiros vendidos nas lojas. E pesam. Pesam a medida dos anos. E quando estendo a mão a alguém é quase sempre um lapso. Cada aceno em direção ao outro é risco de queda livre. E sempre aceno. E sempre despenco. Mas meu consolo é minha estante. Sustentada em madeira e fé. E meu travesseiro tem a medida de minha cabeça: leve. E ainda assim, todo dia eu faço uma aposta. E todo dia eu perco.

(Texto de Maíra Viana, do Teatro Mágico)

25 de fev de 2009

Entardece a vida

Era tarde de Domingo e no horizonte a policromia tomou conta da natureza, enfeitando-a com mesclas de vermelho, raios laranja iluminados, tons de cinza sisudo, e traços lilases. Era bonito de se ver aquele quadro em meio ao qual o sol se despedia. Deslizando para o outro lado da Terra, deixava a impressão de seu dever cumprido: havia iluminado o dia. A paisagem rapidamente se desfez e guardou o sol no manto da noite. É generoso o espetáculo que o entardecer proporciona. Sensibilidade, serenidade e intimidade, nos possibilitam descortinar a beleza do fim do dia, como também perceber as faces encantadas do final de um percurso.

O pôr do sol é bonito, porque é efêmero. Se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente. Tudo pede para terminar, até mesmo um beijo ardente. A vida pulsa em direção ao fim. Imaginemos por um instante, que o sol jamais vai se pôr, ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos, como nos sentiríamos em relação a este dia e-t-e-r-n-o e em relação à vida sem fim. O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer. Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e estética.

A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos todos nessa direção, e, como o sol, nos guardaremos no manto da noite. A sombra que avança para a noite, nos dá notícia do tempo; do tempo que passou, e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento. É no tempo que dispomos que teremos de construir sentido para nosso estar-no-mundo. Não importa quanto tempo teremos, importa torná-lo precioso. Isso se faz renascendo em direções cada vez mais humanizadas e significativas. O pôr do sol tem cheiro de saudade sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. “O que a memória ama, fica eterno” diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Convivemos com o mito da “eterna juventude”. Esse mito nos aliena quando nos submetemos aos imperativos da cultura que superestimam o visual, o lado de fora, o padrão teen de ter um corpo jovem e bonito Mas, haverá uma “eterna juventude” interior se mantivermos uma atitude aberta para a vida, se renovarmos nosso gestual humano, se atualizarmos o gozo de estar vivos, se ressignificarmos sempre nossa presença no Mundo. É infinita a possibilidade de se rever os próprios gestos e crescer em sabedoria. Assim, o corpo pode estar maduro e portar uma alma menina. Essa vida interna é nutrida pelo encontrar-se e encontrar os outros, pelo produzir e participar da vida em sua diversidade.

Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizermos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida. Os valores que alicerçamos, darão tons policrômicos com os quais poderemos colorir o envelhecer. Isso não significa ausência de sofrimentos e inquietações no trajeto do existir. No cenário do entardecer, o pôr do sol fica mais bonito quando há nuvens a transpor, o que lhe proporciona uma beleza inédita. Quanto mais nuvens, maior a beleza. As nuvens são como nossas angústias, elas apenas tentam anuviar nossa alegria, mas se tentarmos compreendê-las, se pudermos acolhê-las, se soubermos lidar com elas, aprenderemos a encontrar força e confiança para a experiência única e fantástica de estarmos no Mundo, de forma bonita, corajosa e construtiva.

(Texto da professora da Unicap, Amparo Caridade)

24 de fev de 2009


" A beleza é um segredo que nossas almas
entendem, e com o qual se regozijam
e se nutrem. Mas nossas mentes olham-na
sem a entender e procuram em vão definí-la
em palavras. É um fluido invisível que se move
entre as emoções do ser que admira e
do ser admirado ... "

Kahlil Gibran


Para uma Menina com uma flor


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.

E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

(Texto de Vinícius de Moraes)

23 de fev de 2009

Antes de virar nuvem


Naquela noite a chuva descia do telhado e respingava pra dentro da varanda. Obedecia à força sutil do vento. Coloquei as plantas no beiral e fiquei olhando as gotas que caíam sobre elas. Nada era programado, tudo à mercê do acaso. Umas eram gotículas que nem chegavam sequer a balançar uma pequena folha, e outras maiores, com volume que envolveriam uma formiga, pareciam gotas gigantes que deixavam as folhas durante uns instantes em constante movimento, até descerem escorregando e sumirem na terra.

As folhas com jeito de lança, se adaptavam ao forçado balé por não terem aonde se amparar. Tinham raízes mas mesmo assim não deixavam de sofrer com a ação da chuva que instigava indiscriminadamente, devagar e constantemente, a parte que ficava exposta e indefesa. Se estavam gostando do frescor da água, só depois, olhando o viço que se mostraria com o tempo, eu iria saber.

Naquela noite me senti como as plantas no beiral, sem poder contra as intempéries, e só alguns dias depois, iria saber se me molhar com meus pensamentos iria me fazer bem. Estava perdendo o controle das minhas certezas e nada que eu fizesse pra conduzi-las, adiantava. Era uma torrente incontrolável e apenas a emoção me encharcava. Eram gotas que me faziam balançar à mercê da sua vontade aleatória.

Meus pensamentos e idéias se molhavam na chuva forte e se esvoaçavam nos ventos que açoitavam sem piedade as convicções de quase uma vida inteira! Só na solidão, sem querer dividir a responsabilidade das minhas decisões com ninguém mais, eu tinha que passar por essa tempestade! Talvez sentir a pele arrepiar com o vento do medo, ou, quem sabe, congelar com o frio na alma.

O viço eu veria depois. Será que se mostraria? Será que faria minhas raízes mais fortes e as folhas mais firmes em seus galhos? Viver o avêsso de tudo o que vivi até agora era o desafio! Rebuscar, remexer, revirar todo o baú da memória à procura do momento do desvio do caminho, aquele instante que o ímpeto abriu uma brecha pro improvável, quando tudo ia dar certo. Viver, hoje, o avesso seria voltar ao correto, ao destino traçado, ao provável! Sim, isso sim! Sou o avesso do que por muito tempo amarguei!

Não quero virar nuvem sem antes fazer o que vim pra fazer! Quero, um dia, chover as coisas boas de mim e balançar as folhas dos que me entenderão! Quero minhas palavras e melodias na pele dos sensíveis, ver o suor de quem sabe amar a vida se misturando com as gotas que vou chover. Não quero mais o mormaço ou as pedras sem fontes, tampouco os desertos. Prefiro os mares ou gotas ou letras que formam palavras ou músicas ou mesmo... lágrimas.

Jota Maranhão (cantor e compositor)


"Se a gente não fosse feito para ser feliz,
Deus não teria caprichado tanto
nos detalhes, intuo."

Ana Jácomo

O menino e o sol


Um dia, um menino acordou e
deu de cara com o sol.
Pensou:
"-Por que ele é o sol e não eu?"

O sol, acordado há bilhões de anos, deu
de cara com o menino e perguntou:
"-Por que ele é menino e não eu?"

Gabriel Marquim


http://www.gmarquim.blogspot.com/


Um real por um sonho

Há algumas semanas vi reportagens sobre uma linda menininha que precisa da nossa ajuda. O nome dela é Clara Pereira Costa e tem 1 ano de idade e mora aqui em Recife. Clarinha nasceu com paralisia cerebral devido à complicações na hora do parto. O que me encantou naquela criança foi o sorriso espontâneo estampado no rostinho dela. Ela tem algumas limitações fisícas causadas pela paralisia. A paralisia cerebral dificilmente afeta a inteligência. Afeta apenas as habilidades motoras. Isso explica porque Clara aparenta ser tão inteligente e curiosa. Há um tratamento com células-tronco realizado na China que tem feito verdadeiros milagres na vida dos que se submetem a ele. Os pais de Clarinha estão esperançosos e contam com a sensibilidade e solidariedade das pessoas para que ela possa fazer o tratamento. A campanha Um real por um sonho foi abraçada por jogadores do Náutico e Santa Cruz e, no jogo entre as duas equipes, os torcedores puderam contribuir para que o sonho de Clara possa ser realizado.

Fiquei sensibilizada com a história de Clarinha e abracei a campanha. Quem puder e se sentir sensibilizado com essa história da vida real, por favor, contribua. Afinal de contas, o que é que a gente compra com R$1,00? Alguns confeitos, pipoca? Com R$1,00, Clara poderá se sentar, engatinhar, falar, andar, pegar coisas... Enfim, terá uma vida nova e normal fazendo tudo que ela não consegue fazer hoje em dia. Para saber mais visite o site da campanha:
http://www.umrealporumsonho.com.br/

Como doar?

A sugestão é que você doe pelo menos R$1,00 como o nome da campanha sugere. Contudo, sinta-se livre para doar a quantia que seu coração mandar. O Tratamento com Células Tronco (cordão umbilical) custa cerca de US$40.000 (em dólares, o que dá aproximadamente R$65.000,00 - com o dólar a R$1,65) (esse valor já contempla o tratamento com células tronco, vôos do Brasil para China, hospedagem, etc).

Para quem tem conta no Bradesco:

Faça um depósito, uma transferência ou um DOC para:

Favorecido: Clara Costa Pereira
Banco: Bradesco
Agência: 2798-7
Conta Poupança: 1007246-8

Para quem tem conta no Banco do Brasil:

Faça um depósito, uma transferência ou um DOC para:

Favorecido: Clara Costa Pereira
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1814-7
Conta Poupança: 24787-1
Variação: 01

Então, se você se comoveu com a história de Clara, doe ou envie esse site: http://www.umrealporumsonho.com.br/ aos seus amigos e conhecidos! No site da campanha há outras formas de doação e mais informações sobre a campanha e história de Clarinha. Conto com a ajuda de vocês. Afinal, TODOS NÓS SOMOS UM!Tenham um ótimo dia e que Deus lhe dê o dobro tudo o que você fizer por Clara!

Beijos perfumados

A hora da flor


Não quero viver como uma planta que engasga e não diz a sua flor. Como um pássaro que mantém os pés atados a um visgo imaginário. Como um texto que tece centenas de parágrafos sem dar o recado pretendido. Que eu saiba fazer os meus sonhos frutificarem a sua música. Que eu não me especialize em desculpas que me desviem dos meus prazeres. Que eu consiga derreter as grades de cera que me afastam da minha vontade. Que a cada manhã, ao acordar, eu desperte um pouco mais para o que verdadeiramente me interessa.

Não quero olhar para trás, lá na frente, e descobrir quilômetros de terreno baldio que eu não soube cultivar. Calhamaços de páginas em branco à espera de uma história que se parecesse comigo. Não quero perceber que, embora desejasse grande, amei pequeno. Que deixei escapulir as oportunidades capazes de bordar mais alegrias na minha vida. Que me atolei na areia movediça do tédio. Que a quantidade de energia desperdiçada com tantas tolices poderia ter sido útil para levar luz a algumas sombras, a começar pelas minhas.

Que eu saiba abrir as minhas asas, ainda que com medo. Que, ainda que com medo, eu avance. Que eu não me encabule jamais por sentir ternura. Que eu me enamore com a pureza das almas que vivem cada encontro com os tons mais contentes da sua caixa de lápis de cor. Que o Deus que brinca em mim convide para brincar o Deus que mora nas pessoas. Que eu tenha delicadeza para acolher aqueles que entrarem na roda e sabedoria para abençoar aqueles que dela se retirarem.

Que, durante a viagem, eu possa saborear paisagens já contempladas com olhos admirados de quem se encanta pela primeira vez. Que, diante de cada beleza, o meu olhar inaugure detalhes, ângulos, leituras, que passaram despercebidos no olhar anterior. Que eu me conceda a benção de ter olhos que não se fechem ao espetáculo precioso da natureza, há milênios em cartaz, com ou sem plateia. Quero aprender a ser cada vez mais maleável comigo e com os outros. Desapertar a rigidez. Rir mais vezes a partir do coração.

Quero ter cuidado para não soltar a minha mão da mão da generosidade, durante o percurso. E, quando soltá-la, pelas distrações causadas pelo egoísmo, quero ter a atenção para sincronizar o meu passo com o dela de novo. Quero ser respeitosa com as limitações alheias e me recordar mais vezes o quanto é trabalhoso amadurecer. Quero aprender a converter toda a energia disponível às mudanças que me são necessárias, em vez de empregá-la no julgamento das outras pessoas.

Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de encanto. A coragem para me aproximar, um pouquinho mais a cada dia, da realização de cada sonho que me move. A idéia de que a minha vida possa somar no mundo, de alguma forma. A intenção de não morrer como uma planta que engasgou e não disse a sua flor.

(Texto da sempre doce Ana Jácomo)