23 de fev de 2009

Antes de virar nuvem


Naquela noite a chuva descia do telhado e respingava pra dentro da varanda. Obedecia à força sutil do vento. Coloquei as plantas no beiral e fiquei olhando as gotas que caíam sobre elas. Nada era programado, tudo à mercê do acaso. Umas eram gotículas que nem chegavam sequer a balançar uma pequena folha, e outras maiores, com volume que envolveriam uma formiga, pareciam gotas gigantes que deixavam as folhas durante uns instantes em constante movimento, até descerem escorregando e sumirem na terra.

As folhas com jeito de lança, se adaptavam ao forçado balé por não terem aonde se amparar. Tinham raízes mas mesmo assim não deixavam de sofrer com a ação da chuva que instigava indiscriminadamente, devagar e constantemente, a parte que ficava exposta e indefesa. Se estavam gostando do frescor da água, só depois, olhando o viço que se mostraria com o tempo, eu iria saber.

Naquela noite me senti como as plantas no beiral, sem poder contra as intempéries, e só alguns dias depois, iria saber se me molhar com meus pensamentos iria me fazer bem. Estava perdendo o controle das minhas certezas e nada que eu fizesse pra conduzi-las, adiantava. Era uma torrente incontrolável e apenas a emoção me encharcava. Eram gotas que me faziam balançar à mercê da sua vontade aleatória.

Meus pensamentos e idéias se molhavam na chuva forte e se esvoaçavam nos ventos que açoitavam sem piedade as convicções de quase uma vida inteira! Só na solidão, sem querer dividir a responsabilidade das minhas decisões com ninguém mais, eu tinha que passar por essa tempestade! Talvez sentir a pele arrepiar com o vento do medo, ou, quem sabe, congelar com o frio na alma.

O viço eu veria depois. Será que se mostraria? Será que faria minhas raízes mais fortes e as folhas mais firmes em seus galhos? Viver o avêsso de tudo o que vivi até agora era o desafio! Rebuscar, remexer, revirar todo o baú da memória à procura do momento do desvio do caminho, aquele instante que o ímpeto abriu uma brecha pro improvável, quando tudo ia dar certo. Viver, hoje, o avesso seria voltar ao correto, ao destino traçado, ao provável! Sim, isso sim! Sou o avesso do que por muito tempo amarguei!

Não quero virar nuvem sem antes fazer o que vim pra fazer! Quero, um dia, chover as coisas boas de mim e balançar as folhas dos que me entenderão! Quero minhas palavras e melodias na pele dos sensíveis, ver o suor de quem sabe amar a vida se misturando com as gotas que vou chover. Não quero mais o mormaço ou as pedras sem fontes, tampouco os desertos. Prefiro os mares ou gotas ou letras que formam palavras ou músicas ou mesmo... lágrimas.

Jota Maranhão (cantor e compositor)

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