7 de dez. de 2010

"O essencial é invisível aos olhos"


Era manhã de uma longa semana de trabalho. Ônibus lotado, trânsito lento, pessoas reclamando. Tudo na mais imperfeita normalidade. Exceto por um pequeno detalhe que encheu aquele instante de cor. Detalhe este que ninguém percebeu nem naquele dia nem em nenhum dos dias que se sucederam ao longo daqueles 11 meses. Pelo menos, nunca ouvi nenhum comentário. E será que aquele gesto merecia admiração? Merecia muito mais que isso. Um livro, talvez. Uma reportagem. Ou a simples crônica que escrevo agora.

Talvez algum jornalista, além de mim, tenha pensado em escrever algumas linhas sobre o fato. Talvez tenha pensado em fazer uma entrevista perfil com o autor do ato e revelá-lo à sociedade, que passaria a voltar o olhar, habituado ao cotidiano, àquela pequena ação. Talvez. Mas talvez tenha esbarrado no olhar estreito de algum editor. Então, recordo um texto escrito pela escritora Rita Apoena: "Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem." Jornalista não é um pouco poeta? Cronista? Ou pelo menos deveria ser? Isso não o faria perder a imparcialidade ou a objetividade pregadas nos cursos de jornalismo.
Eu não poderia achar tudo aquilo normal, sem importância e seguir incólume. Então, contei e mostrei a minha prima, que por vezes divide comigo a agonia diária da precariedade do transporte público. Pronto. Agora alguém também repara todas as manhãs aquele gesto simples, mas tão grandioso. Capaz de tecer um poema à simplicidade. O que será que acontece de tão sublime e que ninguém conseguiu perceber?


Todos os dias alguém deposita flores em um respiradouro no canteiro central da avenida Agamenon Magalhães, uma das mais movimentadas da capital pernambucana, nas proximidades do viaduto da avenida Norte – Miguel Arraes de Alencar. Um cano azul transforma-se em vaso. Um ritual sagrado, que em hipótese alguma deveria deixar de ser cumprido. Quando não há flores a serem ofertadas, ramos verde esperança são oferecidos. As flores deveriam ser colhidas em algum lugar distante. Visto que nas proximidades não havia flores daquele tipo.


Mas quem, ao nascer da manhã, dedicaria parte do seu tempo a colher flores, caminhar um longo percurso para depositá-las no jarro improvisado sem que ninguém percebesse a nobreza do gesto?

Num belo dia, mais um em que volvo o olhar para a cena cotidiana, tenho uma grata surpresa. Vejo um homem com semblante jovial, cabelos castanhos na altura dos ombros, trajando calça jeans, camiseta e com uma mochila nas costas caminhando em direção ao respiradouro com um buquê de flores do campo nas mãos. O instante para. Tudo para. Delicadamente, o homem arruma as flores no vaso e vai embora. Simples e rápido assim.

Aquele homem, aquele gesto simples me fez recordar outro homem que viveu aqui há mais de 2 mil anos. Até se pareciam fisicamente. Pelo menos, pelas referências que temos do jovem Galileu. A única coisa divergente era os trajes modernos usados pelo jardineiro, próprios do século 21. A eloqüência dos gestos e do silêncio era a mesma. Falavam sem palavras. Dedicavam suas vidas a encher de beleza e maciez tantas outras. Mesmo que a maioria das pessoas estivesse surda àquele grito.

Minha vontade era descer do ônibus, parar o relógio e roubar um pouco do tempo dele. Entender a razão daquele ato. Ouvi-lo contar sua história. Repetir, assim, o gesto de Maria sentada aos pés do Cristo mesmo com tantos afazeres domésticos à sua espera. Mas eu não tinha tempo. Tinha horário a cumprir.

Aquela cena se repete diariamente e tem o poder de ser única. Aquele homem tornou aqueles mágicos segundos eternos. Aprendeu com Deus a desenhar coisas bonitas no mundo. Seria o senhor Gentileza recifense? Não sei. Só sei que me mostrou que é verdade a frase dita por Shakespeare: “São os pequenos acontecimentos diários que tornam a vida espetacular.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário