27 de jan de 2008

O centenário do Dom da Paz

O eterno arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara completaria no dia 7 de fevereiro de 2008, 99 anos. Mesmo não estando entre nós, aqui na Terra, o Dom da Paz receberá muitas homenagens. Não tenho dúvidas que lá no céu a festa será maior ainda.

Quem não se lembra daquele franzino homem, que se fez forte na defesa da vida e dos mais necessitados, que amou os pobres de forma ímpar, que aceitou as diferenças e jamais condenou alguém. Compreendeu e foi incompreendido, mas fez de cada segundo que viveu uma oportunidade para tornar o mundo melhor. Deixou várias sementes plantadas e transformou a vida de muita gente.

Infelizmente, não tenho muitas lembranças dele, porém sou fã incondicional deste santo que mostrou ao mundo que ser feliz é simples, só é preciso fazer os nossos irmãos felizes e lutar para que os nossos direitos sejam respeitados. É preciso enxegar o Cristo, que está ao nosso lado e que muitas vezes ignoramos. Que chuvas de paz reguem os nossos solos e que os frutos das árvores que Dom Hélder plantou sejam colhidos em abundância.

Encontrei um texto escrito pela Irmã Domitila Ribeiro Borges. Ela conheceu e conviveu com Dom Hélder, por isso acho mais indicado publicá-lo, do que escrever um. Ela relata fatos e detalhes que enriquecerão o nosso conhecimento sobre a vida deste santo que viveu tão perto de nós. Um fato que poucos sabem é que Dom Hélder escreveu uma música chamada: "No azul da manhã". A canção foi gravada pelo cantor Altemar Dutra e regravada por Leonardo Sullivan. Leonardo me revelou que o acerbispo sempre negou que tivesse composto a bela canção, e dizia que o autor era um sobrinho dele. Ninguém tinha dúvidas que o Dom da Paz era o compositor, mas os tempos eram difíceis e poucos compreenderia que um bispo escrevesse uma canção de amor. Antes do texto da Irmã Domitila vou publicar a letra da música.


No Azul da Manhã
(Helder Câmara/Roberto Mário)

Ah, essas flores sorrindo
No azul da manhã
Parecem cantar
A nossa canção

E essa ternura surgindo
Em meu coração
Eu vou te ofertar
No azul da manhã

A madrugada orvalhou
O chão onde estamos
E o dia se fez
De luz e calor
Faça de conta que amamos
Pela primeira vez
E me abrace, me beije
A sorrir como as flores
No azul da manhã


Dom Hélder Câmara: uma estrela cintilante no século XX

Tinha uma constituição franzina como o corpo de um pássaro, mas asas e olhar possantes de águia que vê longe, sobe alto e não tem medo de fitar o sol, o sol da verdade que tanto amava.

Conheci D. Hélder quando ainda neo-sacerdote, pois era capelão de nosso colégio Santa Rosa de Lima no Rio de Janeiro. Gostava de ir aspirando os ares da manhã e se quedando estático ante a beleza da Baía de Guanabara à espera do despontar do sol. Punha-se então de joelhos e adorava, louvava o Artista incomparável de todo aquele esplendor.

Chegava à nossa capela orvalhado de oração, impregnado de Deus. Suas Missas para nós foram inesquecíveis, tal era a unção e o amor com que celebrava, nos deixando marcados pela doçura e piedade, sobretudo, quando nos dava a Eucaristia. No entanto, não só a bondade mas a coragem e o destemor eram marcas de sua personalidade tão rica.

No dizer de Frei Beto, no seu livro “Fonte de Pão e de Beleza”, são muitas as histórias em torno da extraordinária figura de Dom Hélder. Uma delas, porém, retrata sua têmpera: nos anos difíceis da repressão, a Polícia Federal bateu à sua porta. Ele mesmo atendeu, como sempre o fazia. Brasília temia que ele sofresse um atentado e a culpa recaísse sobre o governo.

Os policiais disseram que ali estavam para oferecer-lhe um esquema de segurança. “Não preciso – respondeu – Dom Hélder – já tenho quem cuida de minha segurança”. Os agentes queriam os nomes mas ali nenhum registro constava dos órgãos oficiais.
“São três pessoas – a que disse apontou o arcebispo – o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

No famoso Congresso Eucarístico de 1955, como Arcebispo Auxiliar do Cardeal D. Jaime, Dom Hélder foi a alma de tudo. Iluminado pelo Espírito Santo ia recebendo impulsos para que aquela festa fosse realmente uma glória para Deus. E o foi. Não lhe faltaram amigos, colaboradores para a realização de todos os seus sonhos. Entre os maravilhosos Congressos que já tivemos, aquele do Rio de Janeiro se tornou notável. Não sei como, num corpo tão frágil, havia tanta energia e criatividade para tudo o que se realizou naquele evento religioso que atraiu cristãos do mundo inteiro. O hino foi composto por D. Marcos Barbosa, beneditino, membro da Academia Brasileira de Letras. Ao conteúdo profundo e simples ao mesmo tempo, calhou muito bem a música que toda gente aprendeu.

À reflexão de um Cardeal Francês, impressionado com a diferença chocante entre a magnitude das riquezas que via e a miséria das favelas: “Não é irritante ver este fausto religioso num lugar rodeado de misérias?” D. Hélder calou-se.

Esta frase foi um despertar mais profundo na alma daquele Arcebispo já tão voltada para o problema dos oprimidos, para as injustiças sociais. Daí em diante ele nunca mais pôde viver acomodado. Foi o principal articulador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), embora muitos silenciassem esta iniciativa. Criada em 1952, a CNBB é hoje na igreja um modelo perfeito para os países católicos.

Por quatro vezes, entre 1970 e 1973, D. Hélder foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. Pregava a justiça, a solidariedade, a fraternidade, a honestidade, a paz, o amor, a verdade. E isto o fazia através de toda a Europa, proibido que estava de falar no Brasil, onde era chamado de “Bispo Vermelho”. Por onde quer que passasse era o favorito ao Prêmio Nobel da Paz, mas não o recebeu, devido à pressão do governo brasileiro, então sob o domínio da Ditadura Militar. Em Paris, em 1970, reuniu mais de 20.000 pessoas para denunciar as torturas no Brasil. É claro que desagradava aos poderosos, aos culpados, aos covardes...

A obediência religiosa fez calar este homem que conquistava o mundo com sua sabedoria, sua coragem e sua santidade.

Quando Arcebispo de Olinda, recebeu um dia um grupo de fiéis, que, chorando muito, lhe contaram que eles haviam encontrado as hóstias consagradas atiradas na lama. “Que sacrilégio! Que pecado grave”! E lhe pediram para celebrar uma missa em reparação. É claro que ele aceitou, mas durante a missa, lhes disse: “Meus irmãos, como nós somos cegos! A descoberta das hóstias consagradas vos transformou. Mas o Cristo na lama, no meio de vós, é um fenômeno de todos os dias. Nós reencontramos Jesus Cristo diariamente nos Cortiços subumanos”!

“Realmente presente na Eucaristia, o Cristo conhece uma outra presença real na miséria humana. (Cahiers Saint Dominique)”.

Durante anos, D. Hélder silenciou-se sem amargura, sem recriminação, sem revolta, mas numa perfeita adesão à obediência a Deus, manifestada pelos homens.

D. Hélder possuía uma alma de poeta sensível a todo sofrimento humano. Mas gostava de um bom teatro, tinha cantores (as) e canções preferidas. O poeta que sempre nele existiu, deixou-nos livros de uma beleza comovedora, onde se misturam suas ânsias por um mundo melhor, sua capacidade de captar as maravilhas criadas por Deus e seu grande e profundo amor aos excluídos da humanidade.

6 comentários:

  1. Esse era o cara! Sabia o que queria e vive intensamente. Suas ações, seu exemplo será para sempre lembrado nos corações daqueles que mesmo em atos simples, reconhcem a dignidade do ser. Foi bom falar dele.

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  2. Olá,

    Aí vai uma correção.

    A música "Azul da Manhã" realmente é do sobrinho do Dom Hélder, que compartilha o mesmo nome!!!

    Este sobrinho, além de ser compositor, é Mestre Internacional de Xadrez, e bicampeão brasileiro! Cheque suas fontes!

    No mais, o texto está maravilhoso.

    Um abraço,

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  3. Plínio, obrigada pela informação. Eu soube dessa "polêmica" em relação à autoria da música através do Leonardo Sullivan. Mas agora com a sua correção o fato está esclarecido.

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  4. Acho possível que essa música possa não ter sido do Dom da Paz. Mas me pergunto: Por que o sobrinho que é apontado como o autor da mesma, nunca apareceu? e
    por que o próprio dom Hélder nunca veio a público para explicar essa polêmica?
    Para mim, até prova em contrário, a mesma é do nosso querido Dom da Paz.

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  5. Carmem, obrigada pela visita! O que Plínio escreveu tem grandes chances de ser verdade porque o Hélder Câmara, mestre de xadrez é também cronista e compositor (http://www.hcamara.com.br/perfil.htm). E não dá para negar que a sensibilidade corre nas veias da família Câmara.

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  6. Dom Helder foi e é sem dúvida um ícone no que se refere a atuação pastoral e política.
    Um homem iluminado que instigava as pessoas a buscarem a realização de seus sonhos e sobretudo o respeito à vida.
    Vi o documentário "Dom Helder Câmara - O Santo Rebelde"; é simplesmente fantástico. Mostra de forma muito competente grandes momentos da trajetória de Dom Helder, bem como momentos de extremissima simplicidade do dia-a-dia deste grande homem.

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