7 de jan. de 2008

A serpente e o vaga-lume

Numa floresta distante, lá estava ela, à espreita, esperando que ele passasse. Era paciente e, além de tudo, tinha tempo de sobra. Só lhe restava passar o resto da vida assim, a rastejar, a espreitar os distraídos. E, finalmente, chegara a sua vez.

Os dias daquele animalzinho insignificantes estavam contados. Era só ele passar e... nhac!!! Adeus! Tinha jurado a si mesma que, quantos dele cruzassem o seu caminho, haveriam de ter o mesmo fim.

Não muito longe dali, lá vinha ele, a deixar seus pinguinhos de luz por onde passava. A noite já havia chegado e ele exercitava o seu maior prazer: piscar sua luz intermitente, tornando aquele lugar ainda mais interessante. Como era bela a vida, pensava. Como era agradável seu lar. E como era maravilhoso ser livre!! E, por onde passava, o pequeno vaga-lume deixava aquele balé de luzes para alegrar a noite de todos os que habitavam a floresta.

Repentinamente, sentiu um deslocamento de ar que, no mínimo, lhe pareceu muito suspeito. Ademais, seus instintos lhe avisaram que o perigo estava perto. Aguçou os sentidos e, lá estava: no meio da mata fechada, a serpente, pronta a dar um segundo bote!!! O primeiro havia sido frustrado porque, no momento exato em que a serpente se projetara, ele decidira dedicar seu brilho à Dona Coruja, a postos para mais uma noite em claro. Dessa forma acabou saindo do campo de ação de sua caçadora. Apavorado, ele bateu suas frágeis asinhas o mais rápido que pôde. Tinha que sair dali! Tinha que fugir dali! Tinha que sair do alcance da serpente. Era fugir ou morrer.

Duas horas se passaram. A escuridão da floresta era assustadora. Só se ouvia o vento e, vez ou outra, um novo deslocamento de ar. Como o primeiro dentre tantos que a serpente provocara desde que iniciara sua caçada. O vaga-lume, a cada investida, sentia que estava próximo o seu fim. Já não podia mais lutar. Não tinha mais forças. Nem para viver. Cansado e ofegante, o pobre bichinho parou bruscamente e bradou:

-"Tá bom, tá bom, eu não agüento mais. Só quero que, antes de acabar comigo, você me diga por quê?”.

A serpente irritada, irritada com tanta ousadia, gritou:

- "Porque eu quero!"

- "Isso não é resposta. Se vai me matar, tenho direito de saber por quê. Eu te fiz algum mal?"

- "Não." Ela respondeu secamente.

- "Faço parte da sua cadeia alimentar?."

- "Não."

- "É alguma rixa de família?"

- "Já disse que não. Que animalzinho irritante você é. Como se já não bastasse deixar-me tão cansada, ainda quer que eu lhe dê explicações? Ora, vamos e venhamos. Você vai morrer e pronto!"

- "Por favor", implorava o vaga-lume, "Eu te suplico, por favor, que mal eu te fiz?"

- "Chega! Você não me fez mal algum."

- "Então, por que você quer tanto me matar?"

- “Porque eu não suporto ver você brilhar”.

(Autor desconhecido)

Fora de moda

Se não estivesse tão fora de moda... iria falar de Amor.
Daquele amor sincero, olhos nos olhos, frio no coração, aquela dorzinha gostosa de ter muito medo de perder tudo...
Daqueles momentos que só quem já amou um dia conhece bem...
Daquela vontade de repartir, de conquistar todas as coisas, mas não para retê-las no egoísmo material da posse, mas para doá-las no sentimento nobre de amar.

Se não estivesse tão fora de moda... Eu iria falar de Sinceridade.
Sabe, aquele negócio antigo de Fidelidade... Respeito mútuo... e aquelas outras coisas que deixaram de ter valor...
Aquela sensação que embriaga mais que a bebida; que é ter, numa pessoa só, a soma de tudo que às vezes procuramos em muitas...
A admiração pelas virtudes e a aceitação dos defeitos, mas, sobretudo, o respeito pela individualidade, que até julgamos nos pertencer, mas que cada um tem o direito de possuir...

Se não estivesse tão fora de moda... Eu iria falar em Amizade.
Na amizade que deve existir entre duas pessoas que se querem bem...
O apoio, o interesse, a solidariedade
de um pelas coisas do outro e vice-versa.
A união além dos sentimentos, a dedicação de compreender para depois gostar...

Se não estivesse tão fora de moda... Eu iria falar em Família. Sim...Família!
Essa instituição que ultimamente vive a beira da falência, sofrendo contínuas e violentas agressões.
Pai, Mãe, Irmãos, Irmãs, Filhos, Lar...
Aquele bem maior de ter uma comunidade unida, pelos laços sangüíneos e protegidas pelas bênçãos divinas.
Um canto de paz no mundo, o aconchego da morada, a fonte de descanso e a renovação das energias...

E depois, eu iria até, quem sabe, falar sobre algo como... a Felicidade.
Mas é uma pena que a felicidade, como tudo mais, há muito tempo já esteja tão fora de moda e tenha dado seu lugar aos modismos da civilização...
Ainda assim, gostaria que a sua vida fosse repleta dessas questões tão fora de moda e que, sem dúvida, fazem a diferença!
Afinal, que mal faz ser um pouquinho “careta.”

(Desconheço o Autor)

6 de jan. de 2008

Big Besteirol Brasil

Mais uma vez vai começar o besteirol chamado Big Brother Brasil e mais uma vez o povo brasileiro se renderá ao show da alienação. É incrível como tanta gente pára em frente a uma televisão para ficar comentando sobre a vida dos outros e como tanta gente se candidata ao rídiculo papel que a Globo pauta. Será que ninguém percebe que é tudo armado? Programas como esses desrespeitam a inteligência dos brasileiros.

Poucos sabem que a televisão é uma concessão pública e como tal somos nos que decidimos o que deve ou não ser exibido. Não podemos aceitar que veículos de comunicação tão estruturados tecnicamente vomitem programas de tão baixo nível. As empresas afirmam que mostram o que o povo quer e o povo diz que assiste porque não há outra alternativa. Quem está certo?

O público é quem deve decidir o que assistir e é responsável pelo que é veiculado na telinha porque as televisões pertencem a nós. Porque ao invés de assistirmos esses tipos de programas, não deligamos a TV e vamos ler um livro ou até mesmo procurar programas educativos. Assim como nas eleições nós é que decidimos o que queremos. Pena que não fomos educados para escolher certo. Publico um texto sobre uma das edições do Big Brother publicado no site: http://www.folhadoamapa.com.br/index.php/site/comments/antdoto_uma_priso_equivocada/


Você assiste ao Big Brother?

"Eu assisto! Eu preciso assistir pra perceber o quanto a tão poderosa Rede Globo manipula o inconsciente do ser humano, a tal propaganda subliminar, famosa e proibida de uso pelos meios de comunicação. A Globo edita as falas de quem está contra o “queridinho” do conglomerado midiático de Roberto Marinho, fazendo com que os telespectadores se convençam daquele que é, desde o início, o escolhido para ganhar o prêmio.

Vejam alguns dados de José Neumani Pinto: “29 milhões de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a R$ 0,30. Então, teremos… R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais, que o povo brasileiro gastou (e gasta ), em cada paredão! Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato “fifty to fifty” com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$4.350.000,00. (...) Nem a Unicef, quando faz o programa Criança Esperança, com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro.

(...) Chega de buscar explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio umbigo, ou o do Brasil. Que eleitor é esse? Depois, não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do BBB! (...)”.

Além da manipulação discarada eregida por esta TV descompromissada com a cultura do Brasil, como citou Neumani, é um exemplo latente de que realmente o povo brasileiro é burro e ignorante por conta de farsas impostas por meios de comunicação como estes. É por isto que políticos como Paulo Maluf voltam mais uma vez para roubar o dinheiro do povo.

Basta de sermos imbecis e alienados, sejamos mais conscientes do processo social em que vivemos. Está na hora de crescermos mais como seres humanos. Chega de permitir que nossos filhos, amigos, parentes, enfim, sejam massacrados com tanta futilidade. Ao invés de gastarmos nosso tempo com conteúdos esdrúxulos provenientes da TV, vamos nos dar as mãos em direção à propostas coerentes e conciliadoras a respeito de quem realmente precisa de atenção: o povo miserável. Enquanto isso, quem ganha é a Globo, você, cara pálida, é quem perde!"

Deus é como o açúcar

"Um certo dia um homem foi em uma escola falar de DEUS.

Chegando lá perguntou se as crianças conheciam a Deus, e elas responderam que sim. Continuou a perguntar e elas disseram que Deus é o nosso pai, que ele fez o mar, a terra e tudo que está nela, que nos fez como filhos Dele, etc.

E o homem se impressionou com a resposta dos alunos e foi mais longe: “Como vocês sabem que Deus existe, se nunca ninguém O viu?”

A sala ficou toda em silêncio, mas Pedro, um menino muito tímido, levantou as mãozinhas e disse: “A minha mãe me disse que Deus é como o açúcar no meu café com leite que ela faz todas as manhãs. Eu não vejo o açúcar que está dentro da caneca no meio do café com leite, mas se não colocá-lo, fica sem sabor. Deus existe, e está sempre no meio de nós, só que não O vemos; mas se Ele sair de perto, nossa vida fica sem sabor...”

O homem sorriu e disse: “Muito bem Pedro, eu agora sei que Deus é o nosso açúcar e que está todos os dias adoçando a nossa vida...”

Deu a bênção e foi embora da escola surpreso com a resposta daquela criança. Deus quer tornar a nossa vida muito abençoada, mas para que isso aconteça é necessário deixarmos que Deus faça milagres e uma grande transformação em nosso coração.

Pense nisso, hoje não esqueça de colocar "AÇÚCAR" em sua vida!"

A Fábula da Verdade

Uma tarde, muito desconsolada e triste, a verdade encontrou a Parábola, que passeava alegremente, num traje belo e muito colorido.

- Verdade, porque estás tão abatida? - perguntou a Parábola.

- Porque devo ser muito feia já que os homens me evitam tanto!

- Que disparate! - riu a Parábola - não é por isso que os homens te evitam. Toma, veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece.

Então a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola e, de repente, por toda à parte onde passavaera bem vinda.

- Pois os homens não gostam de encarar a Verdade nua; eles a preferem disfarçada."

Conto Judaico

1 de jan. de 2008

Um novo tempo...


O ano de 2007 passou ligeiro. Só para variar vou ter que citar o Jorge Vercillo: "O tempo passou feito um louco..." Apressado, deixou boas recordações e saudades dos que foram morar pertinho de Deus. Apesar do tristes acontecimentos, os agradáveis conseguiram superá-los. Agora é escrever um novo capítulo na nossa história e que ele seja cheio de aventuras, amor, paz, amizade e saúde. Desejo a todos um 2008 maravilhoso e que juntos possamos escrever uma linda história...

Beijos cheios de bons desejos...

Hoje, estou postando um texto escrito pela jornalista Ana Jácomo. Passei a admirar a Ana quando li outro texto dela entítulado Almas Perfumadas. Ela escreve de uma forma suave, delicada e emocionante. O texto a seguir chama-se Historinha de amor pra gente grande e foi publicado no livro Parto de Mim, lançado em 2001. Sugiro aos que lerem esta publicação, que visitem o blog da Ana Jácomo. Assim vocês poderam beber diretamente na fonte. O endereço é: http://www.anajacomo.blogspot.com/

Dedico o texto a todos os meus amigos...

Historinha de amor pra gente grande

Contam os anjos que às vezes me inspiram que um pouquinho antes de materializar o seu plano de criação da vida humana e se derramar no coração de todas as coisas da Terra, o Senhor Deus Todo Poderoso resolveu repassá-lo, ponto a ponto, pela última vez. E, ao terminar o trabalho, sentiu, bastante surpreso, que ainda parecia estar faltando um detalhe sem nome nem rosto em sua grandiosa obra. Algo que não havia sido contemplado por nenhum dos incontáveis milagres com os quais dotaria o homem e o ambiente que preparava para acolhê-lo e supri-lo em sua jornada evolutiva.

Como um poeta que ao findar um poema é tocado pela vibração de uma palavra que não foi dita sem conseguir visualizar-lhe as feições, o Senhor Deus intuiu a ausência de uma dádiva no buquê de luzes que ofertaria ao homem para perfumar sua caminhada heróica, que trilharia até tornar-se um mestre das coisas que não passam e reunir-se a Ele numa só consciência criadora.

O Senhor Deus não sabia que doçura era aquela que reclamava sua amorosa atenção, mas pressentia que se tratava de algo imprescindível. De alguma graça que deixaria uma lacuna em branco em cada história humana, caso não existisse. De mais um dos presentes que bordaria em cada vida com os fios da delicadeza que utilizaria em tudo o que planejava ser forte. Mas o que poderia ser, Ele se perguntava, além das outras tantas ternuras que já havia previsto bordar?

E o Senhor Deus pensou, pensou, pensou. Relembrou cada detalhe, cada etapa, cada riqueza, pacientemente, com todo o zelo de seu coração criador. Reuniu-se com os mestres que o assessoravam no Plano. Trocou idéias. Ouviu, atento, as sugestões e observações que surgiram. Mas nada do que pensava e ouvia atendia à sua expectativa e se aproximava da resposta que buscava desde que aquela intuição lhe visitara. Que traço, afinal, poderia ainda criar para compor o conjunto das bençãos que desenharia na Terra? Que beleza era aquela que murmurava em seu ouvido sem revelar-lhe o rosto?

Contam que, como era costumeiro, numa certa manhã o Senhor Deus Todo Poderoso estava distraído no jardim de sua casa, cuidando amorosamente de suas plantas, quando um anjo, muito belo, muito jovem, banhado de luz azul, aproximou-se Dele para transmitir-lhe uma mensagem de um de seus arcanjos, Miguel, o príncipe celeste que comandava seu exército de luz. E que foi no exato instante em que olhou para aquele anjo que o Senhor Deus descobriu o que ainda faltava em seu plano: anjos que o homem pudesse ver, exatamente como Ele podia ver aquele.

O plano do Senhor Deus previa que seria escolhido para cada pessoa, a partir do momento alquímico de sua concepção, um anjo que iria acompanhá-la em toda a sua trajetória humana, até que devolvesse à Terra a roupa de carne que lhe havia sido emprestada. E, embora se tratasse de um leal companheiro, que iria fortalecê-la, protegê-la e inspirar-lhe, e lhe fosse possível falar com ele e ouvi-lo, em seu coração, o ser humano não poderia vê-lo, a não ser que em algum instante experimentasse um amor tão intenso que conseguisse penetrar na freqüência luminosa onde os anjos moram.

Para o homem, pensava o Senhor Deus, por mais grandiosa que fosse, aquela dádiva não bastaria. Ele sabia que o ser humano teria dificuldade para lidar com as coisas que chamaria de invisíveis. Que se atrapalharia com tudo o que não pudesse ser tocado com algum dos cinco sentidos que, equivocadamente, acreditaria serem os únicos que possuía.

O homem precisaria também de anjos que fossem visíveis. Feitos da mesma matéria que ele. Com os quais pudesse brincar com os brinquedos humanos. Crescer junto, aprendendo, ensinando, trocando. Que os olhassem nos olhos e o encorajassem ao próximo passo às vezes sem uma única palavra sequer. Com os quais pudesse compartilhar os sabores, os sons, as visões, as falas e as texturas das coisas da Terra e sonhar com as coisas do céu. Que estivessem ao seu lado nos dias de sol e também lhe estendessem a mão para atravessar com ele o tempo em que as noites se fariam tão escuras que ele começaria a duvidar do amanhecer.

Sim, continuava a pensar o Senhor Deus, o homem precisaria de anjos visíveis que tivessem em sua vida a mesma bela tarefa do anjo que não podia ver. Anjos que permanecessem em seu caminho quando tudo parecesse ter ido embora. Que acreditassem nele até quando ele próprio se esquecesse quem era. Que quando o cansaço lhe visitasse e os apelos da sombra o convidassem a desistir, desembainhassem a própria espada para lembrar-lhe de que era também um guerreiro. Que emanassem para ele um bem-querer tão puro que fosse capaz de perfumar até o que ainda lhe doesse. Com os quais pudesse rir e chorar, e, sobretudo, ter a liberdade de ser.

O homem precisaria, sim, de anjos visíveis com sangue nas veias. Que tivessem dor de barriga, mau humor, contas pra pagar, unha encravada, medo, dente de siso para extrair, angústia, raiva, baixo astral, e toda uma séria de chatices humanas que os anjos invisíveis respeitam, mas não experimentam. Com os quais pudesse jogar conversa fora. Torcer por um time. Cantar desafinado. Caminhar na praia. Trocar um abraço. Empanturrar-se de risada e bobó de camarão num domingo grande. Que espelhassem para ele sua porção humana e sua porção divina e lhes fizessem parceria no contínuo exercício de integrá-las durante a viagem. Que pudessem servir de canais para os toques, os puxões de orelha e os carinhos do seu próprio anjo guardião, que, sem fazer ruído algum, trabalharia em sintonia com eles o tempo todo.

E depois de dividir com aquele anjo inspirador as feições de sua descoberta, contam que o Senhor Deus Todo Poderoso lhe perguntou o seu nome, pois seria com ele que, em gratidão, chamaria o anjo visível que cada pessoa encontraria na Terra.

E o anjo que inspirou o Senhor Deus, maravilhado com sua bondade, revelou-lhe o seu nome:

- Amigo.

20 de set. de 2007

Jornalismo também é sensibilidade

Li duas reportagens especiais publicadas no Diario de Pernambuco que chamaram a minha atenção. A matéria era sobre Manari, cidade pernambucana que possui o pior índice de desenvolvimento humano do Brasil, e tinham como título Manari e o milagre da maçã e Manari e os dias melhores. É inacreditável que seres humanos vivam em condições tão precárias como as relatadas. Alguns trechos são bem fortes, por exemplo quando uma senhora fala: "Aqui até o nada serve". Até o nada serve... Díficil imaginar como possa servir. Como pessoas podem se sentirem felizes até com o nada. Tantas vezes temos tudo e somos infelizes.

Quero, aqui, parabenizar o repórter Fred Figueroa pela bela reportagem e pela sensibilidade. Às veses, fico imaginando como os profissionais da comunicação reagem em situações feito estas. Será que apenas escrevem a matéria e ficam imunes ao sofrimento das pessoas? Fred Figueroa provou que jornalista também é humano e se compadece com sofrimento das pessoas. Jornalistas não são meros espelhos, como nos sugere a Teoria do Espelho Devemos ser imparciais, quanto a isso não tenho dúvidas, contudo não podemos fechar os olhos ao sofrimento do próximo. É fácil criticar quando uma matéria tem erros, mas nem sempre elogiamos aquelas bem escritas. Publico trechos das reportagens.

As reportagens de Fred Figueroa foram publicadas no Diario de Pernambuco (02 e 03/09/2007) e a foto de Juliana Leitão/D.P

"(...) Na estrada que leva do litoral ao Sertão de Pernambuco, incontáveis placas verdes anunciam cidades e distâncias em letras brancas. Manari não aparece em nenhuma delas. Talvez por esquecimento. Talvez por não ser um lugar para onde alguém pense em ir. Distante demais da capital e de qualquer outro pólo de desenvolvimento do interior. Não existem razões econômicas ou culturais que levem alguém até ali. Até aquela armação metálica vazia. Que funciona apenas como uma moldura enferrujada para um céu quase sempre azul. Que avisa a chegada a lugar nenhum."

"(...) Gildo é o motorista da equipe de reportagem do Diario que foi até Manari. Enquanto a mãe das sete crianças mostrava os quatro cômodos apertados, sujos e escuros da pequena casa em que eles vivem - na zona rural de Manari -, desviei os olhos para o lado de fora. Na sombra de um pinheiro infrutífero, Gildo estava cercado pelos meninos e meninas, com a pequena faca nas mãos, operando aquele que seria o "milagre da maçã". Uma cena espontânea que reflete um sentimento comum para quem chega até ali: é difícil não se envolver com a realidade de Manari."

"(...)Toda a miséria está ali. Na falta de comida; na necessidade de remédios; nos retalhos de colchão velho espalhados pelo chão de barro onde as crianças dormem; na falta de um banheiro (os banhos são na cisterna e o resto, no mato mesmo). O pior lugar para se viver é aquele em que sequer podemos chamar a existência de vida. Mas os olhos de quem passa não enxergam a mesma realidade dos de quem fica."

"(...) Aqui até o nada serve". A frase é de Teresa Maria dos Santos. Agricultora de 54 anos. Difícil entender onde ela quis chegar. Diante da reação surpresa de quem a entrevistava, ela reforça sua teoria sobre o "nada" e a sua cidade: 'e não serve, não'?"

"(...) Depois de minutos de conversa, começa a ficar um pouco mais fácil entender o que ela quis dizer com "aqui até o nada serve". O "nada" de hoje, simplesmente, é melhor que o "nada" de ontem. "Vivíamos morrendo de sede aqui. Não tinha médico, remédios, nem escola. Sempre fomos pobres, mas hoje a gente acorda sabendo que vai viver", diz. Sua vida mudou.Pouco, mas mudou. Sua mãe tem 80 anos e uma saúde tranqüila. Viveu além da "esperança" da cidade. Seus quatro filhos reescreveram a história da família e aprenderam a escrever. Todos estão na escola. E Manari aprendeu a lição."

"(...) Deixamos Manari. Pelo caminho de areia. Mas, com outros olhos. Antes do asfalto, uma última parada. Voltamos para a casa onde vivem Aneci e os seus sete filhos. A história deles foi contada ontem. Dessa vez, deixamos o caderno e a câmera fotográfica de lado. Como disse no início do texto de ontem, é difícil não se envolver com Manari. Não se integrar. Não ajudar. Ali, já não éramos mais jornalistas. Eles, não eram mais personagens. Sacolas com comida e doces. Sorrisos. Lágrimas. Silêncio. E várias mãozinhas acenando.

O jornalismo às vezes tem uma lógica perversa. Vendo a miséria sumindo aos poucos no retrovisor, fica a certeza de que, no próximo censo do IBGE, aquela não será mais a cidade com pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil e certamente, não estará mais na rota das equipes reportagens - que seguem ávidas os rumos que as pesquisas e análises sociais revelam. Manari desaparece na poeira. Na cabeça, volta a imagem daquelas mãozinhas acenando tchau, sem saber que, possivelmente, estavam dizendo 'adeus'. "

9 de set. de 2007

Dá-me a Tua Mão


Estou sem tempo de escrever textos e publicá-los aqui. Mas para não deixar o blog tão desatualizado posto o poema ste poema Dá-me a Tua Mão que é da escritora ucraniana Clarice Lispector. Clarice que, inclusive, viveu durante a infância em Recife e estudou no Ginásio Pernambucano. A autora escreveu diversos livros entre ele Perto do Coração Selvagem (1943), Laços de Família (1972) e o inesquecível A Hora da Estrela (1977).


Dá-me
a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

1 de set. de 2007

Deixem-me viver!

Em um post anterior falei de aborto, contudo não poderia deixar de publicar essa história. O Caso da Espinha Bífica é um relato emocionante e comovente, um grito silencioso pela vida. É um caso verídico. Não preciso falar muito porque a imagem fala por mil palavras.


O Caso da Espinha Bífida

Um fotográfo que fez a cobertura de uma intervenção cirúrgica para corrigir um problema de espinha bífida realizada no interior do útero materno num feto de apenas 21 semanas de gestação, numa autêntica proeza médica, nunca imaginou que a sua máquina fotográfica registaria talvez o mais eloqüente grito a favor da vida conhecido até hoje.

Enquanto Paul Harris cobria, na Universidade de Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, Estados Unidos, o que considerou uma das boas notícias no desenvolvimento deste tipo de cirurgias, captou o momento em que o bebê tirou a sua mão pequenina do interior do útero da mãe, tentando segurar um dos dedos do médico que o estava a operar.

A foto, espectacular, foi publicada por vários jornais dos Estados Unidos e a sua repercussão cruzou o mundo até chegar à Irlanda, onde se tornou uma das mais fortes bandeiras contra a legalização do aborto. A pequena mão que comoveu o mundo pertence a Samuel Alexander, cujo nascimento deverá ter ocorrido no passado dia 28 de dezembro (no dia da foto ele tinha apenas 5 meses de gestação).

Quando pensamos bem nisto, a fotografia é ainda mais eloqüente. A vida do bebê está literalmente presa por um fio. Os especialistas sabiam que não conseguiriam mantê-lo vivo fora do útero materno e que deveriam tratá-lo lá dentro, corrigindo a anomalia fatal e voltar a fechar o útero para que o bebê continuasse o seu crescimento normalmente. Por tudo isso, a imagem foi considerada como uma das fotografias médicas mais importantes dos últimos tempos e uma recordação de uma das operações mais extraordinárias registadas no mundo.

Agora, o Samuel tornou-se no paciente mais jovem que já foi submetido a este tipo de intervenção e, é bem possível que, já fora do útero da mãe, Samuel Alexander Arms aperte novamente a mão do Dr. Bruner.

A apresentadora de televisão Justine McCarthy disse que é impossível não se comover com a imagem poderosa desta mão pequenina que segura o dedo de um cirurgião e nos faz pensar em como uma mão pode salvar vidas.
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Espinha bífida significa espinha cindida ou dividida. Esta divisão se dá nas primeiras semanas de gravidez, quando a medúla , então em formação, não se fecha corretamente, o que faz com que os bêbes apresentem os nervos expostos e vértebras danificadas. Crianças portadoras de espinha bífida poderão apresentar dificuldades de coordenação, aprendizado, controle muscular e mobilidade.

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Precisa dizer alguma coisa? Creio que não.

Ontem, iria publicar o texto acima, porém não tive tempo, ou talvez o destino não quisesse. À noite, fui à Igreja e, por coincidência ou providência, houve uma apresentação sobre o aborto e tocou uma música belíssima que eu já conhecia, mas não lembrava dela. O nome da canção é Grito Silencioso, da banda Santa Clara. Por coincidência, também, eu escrevi que a imagem a cima era um grito silencioso. Infelizmente, não dá para colocar o áudio, contudo publico a letra.


Grito Silencioso
Kátia Simone

Há um sonho realizado, grande obra de Deus Pai
Dar a vida para os filhos, amar, sorrir, louvar e ser feliz
Mas os homens insensíveis sempre querem decidir
quem tem o direito a viver ou quem está
condenado a morrer

Grito silencioso de órfãos inocentes
em nome da liberdade,
assassinados no ventre.

Relações irresponsáveis fazem da vida um brinquedo
tão longe de serem um verdadeiro amor.
Não darão o primeiro grito, nem nos lábios um sorriso.
Pequeninos, indefesos, abortados em segredo
o seu destino é a dor.

Cruelmente exterminados, só queriam ser amados
E fazer tudo que uma criança faz.
Retirados em pedaços, por veneno ou sufocados
pequeninos torturados, pelos seus desamparados
não conheceram o amor.

Grito silencioso, que machuca
o coração de Deus
Maria, mãe da Igreja, roga pelos filhos seus.